Existem profissionais que exercem uma profissão. E existem aqueles que transformam sua própria trajetória de vida em instrumento de mudança social. A advogada Mariel Palma pertence a esse segundo grupo.
Após receber o diagnóstico de autismo, ela passou a enxergar sua história sob uma nova perspectiva e encontrou na advocacia uma poderosa ferramenta para promover inclusão, acessibilidade, respeito e cidadania para milhares de pessoas que enfrentam diariamente barreiras invisíveis à maioria da sociedade.
Especialista na defesa dos direitos das pessoas autistas e com deficiência, Mariel atua em temas relacionados à saúde, educação inclusiva, benefícios, isenções, acessibilidade e direitos de servidores públicos PcDs. Além da advocacia, dedica-se à produção de conteúdo, palestras e projetos voltados à democratização do conhecimento jurídico para a população neurodivergente.
Secretária da Diretoria da ABA Santa Catarina, integrante de importantes comissões da OAB/SC e participante da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Pessoa Autista de Florianópolis, Mariel construiu uma atuação marcada pela combinação entre conhecimento técnico, sensibilidade humana e compromisso com a transformação social.
Nesta entrevista exclusiva ao Dossiê Nacional, ela compartilha reflexões profundas sobre autismo, inclusão, acesso à justiça, associativismo, propósito profissional e os desafios enfrentados por pessoas autistas e suas famílias em uma sociedade que ainda tem muito a aprender sobre diversidade humana.
ENTREVISTA
Dossiê Nacional:
Como o diagnóstico transformou sua visão sobre a advocacia e sua missão de vida?
Mariel Palma:
Eu sempre enxerguei a advocacia de um jeito diferente. Por muito tempo, eu não sabia explicar por quê, apenas percebia que o modelo apresentado como a forma “correta” de advogar não fazia sentido para mim em muitos aspectos.
O diagnóstico me ajudou a compreender que minha forma de pensar, trabalhar, comunicar e interpretar o mundo não precisava ser corrigida. Ela poderia ser a base para a construção de um método profissional próprio.
A partir daí, passei a construir uma advocacia mais coerente comigo e com meus clientes: feita por uma pessoa autista, para pessoas autistas, partindo da vida real e das necessidades concretas de cada um e não de um modelo abstrato sobre como todos deveriam funcionar.
Quando compreendi e acolhi minha forma de existir, percebi que o diagnóstico não havia criado uma nova missão, mas revelado com clareza aquilo que sempre me mobilizou. A partir dessa compreensão, pude nomear e dar direção a esse propósito: transformar direitos que ainda vivem apenas no papel em condições reais de existência, dignidade, autonomia, segurança e participação plena na sociedade.
Para além de advogar para pessoas autistas, quero ajudar a construir um mundo em que não precisemos nos violentar, nos esconder ou provar continuamente o próprio sofrimento para ter nossos direitos reconhecidos.
Dossiê Nacional:
O que a motivou a direcionar sua carreira para a defesa dos direitos das pessoas autistas e com deficiência?
Mariel Palma:
Não foi uma decisão de mercado, nem apenas a escolha de uma área jurídica com a qual eu me identificava. Essa decisão nasceu quando percebi, na minha própria história, o que acontece quando uma pessoa passa anos tentando se adaptar a estruturas que não foram pensadas para ela.
O diagnóstico me permitiu reinterpretar muitas experiências que eu atribuía a falhas pessoais. Compreendi que, muitas vezes, o sofrimento não nasce do autismo ou da deficiência em si, mas da ausência de apoio, acessibilidade e reconhecimento. Foi nesse momento que Direito e saúde mental passaram a se encontrar de forma muito concreta para mim.
Uma adaptação no trabalho, o acesso ao tratamento adequado ou uma educação verdadeiramente inclusiva podem definir se uma pessoa conseguirá permanecer estudando, trabalhar sem adoecer, cuidar da própria saúde, desenvolver seus talentos e construir uma vida com autonomia.
Por isso, o que me motivou a direcionar minha carreira para essa área foi compreender, a partir da minha própria história, que o Direito pode ser a diferença entre uma pessoa viver limitada pelas barreiras impostas ao seu redor ou conseguir construir uma vida com autonomia, dignidade e possibilidades reais.
Dossiê Nacional:
Quais são os principais desafios enfrentados pelas pessoas autistas e suas famílias?
Mariel Palma:
Um dos principais desafios é ter de lutar constantemente para que necessidades reais sejam reconhecidas como legítimas.
Ainda existe uma compreensão muito limitada do autismo baseada em estereótipos. Quando uma pessoa fala bem, estuda, trabalha ou demonstra autonomia em algumas áreas, muitas vezes se presume que ela não precisa de suporte. Mas uma pessoa pode ter grandes habilidades e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades importantes de regulação sensorial e emocional, comunicação, organização da rotina, adaptação a mudanças ou participação social.
Essa falta de compreensão faz com que a pessoa autista precise explicar, justificar e provar repetidamente aquilo que vive. Precisa demonstrar sofrimento suficiente para ter acesso a adaptações, tratamento ou proteção, como se seus direitos dependessem de convencer cada profissional, instituição ou autoridade que encontra pelo caminho.
Para as famílias, isso gera uma sobrecarga profunda. Em vez de encontrarem uma rede articulada, muitas se tornam responsáveis por coordenar tratamentos, interpretar laudos, acompanhar a vida escolar, buscar informações, mediar conflitos e defender direitos. Elas acabam assumindo funções que deveriam ser compartilhadas pelos sistemas de saúde, educação, assistência social, trabalho e justiça.
Outro desafio é que adaptações razoáveis ainda são vistas como privilégios, favores ou vantagens. Na realidade, elas são condições de equidade. Não colocam a pessoa autista à frente das demais; apenas removem barreiras que impedem sua participação em condições justas.
Por isso, entendo que o maior desafio é viver em uma sociedade que ainda exige que pessoas autistas e suas famílias cheguem ao limite para serem ouvidas. Enfrentar esse problema exige informação, integração entre os serviços, qualificação profissional e, sobretudo, a compreensão de que ninguém deveria precisar adoecer, se expor ou lutar indefinidamente para ter suas necessidades básicas respeitadas.
Dossiê Nacional:
Qual a importância da educação e da informação para promover inclusão e ampliar o acesso à justiça?
Mariel Palma:
A educação sempre foi uma das bases da minha vida. Para mim, aprender nunca significou apenas acumular conhecimento, mas adquirir instrumentos para compreender o mundo, reinterpretar minha própria história e agir com sabedoria sobre a realidade.
Por isso, considero que a informação também faz parte do acesso à justiça. Quando uma pessoa não conhece os próprios direitos, pode passar anos convivendo com uma violação sem sequer conseguir nomeá-la. E, quando uma pessoa encontra desinformação em vez de orientação qualificada, pode tomar decisões importantes sobre saúde, educação e futuro com base no medo, na culpa ou em falsas promessas.
Esse problema assume uma dimensão ainda mais grave no campo do autismo. Uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas, realizada em parceria com a Autistas Brasil, revelou que o Brasil lidera o ranking de fake news sobre o autismo na América Latina.
Quando a mentira circula com mais força do que a ciência, ela reforça preconceitos, coloca pessoas em risco, estimula tratamentos inadequados e dificulta o reconhecimento de necessidades e direitos.
É por isso que, para mim, o trabalho jurídico começa muito antes de um processo. Ele começa quando alguém consegue compreender o que está vivendo, reconhecer uma injustiça, conhecer seus direitos e descobrir quais caminhos pode percorrer. Orientar, prevenir violações, capacitar profissionais e traduzir a legislação para a vida cotidiana também são formas de promover acesso à justiça.
Como palestrante, escritora e produtora de conteúdo, busco tornar o conhecimento técnico compreensível sem esvaziar sua profundidade. Não quero que a informação permaneça restrita a quem domina a linguagem jurídica ou possui acesso a determinados espaços.
Educar, para mim, é compartilhar instrumentos de autonomia. Porque um direito desconhecido é facilmente negado, mas, quando uma pessoa compreende seus direitos, ela deixa de ser apenas destinatária das decisões dos outros e passa a participar ativamente da construção da própria história.
Dossiê Nacional:
Como o associativismo pode contribuir para o crescimento profissional e para a transformação da sociedade?
Mariel Palma:
Para mim, associativismo não é colecionar cargos nem apenas ampliar uma rede de contatos. É construir espaços em que pessoas com experiências, conhecimentos e perspectivas diferentes possam se encontrar, aprender umas com as outras e realizar, em conjunto, aquilo que dificilmente conseguiriam fazer sozinhas.
A ABA tem um papel muito importante na minha trajetória justamente porque não se limita a reunir profissionais. Ela genuinamente abre espaços, reconhece talentos, estimula a participação e permite que pautas relevantes encontrem voz, interlocução e alcance. Foi por meio desses espaços que pude ampliar minha atuação, estabelecer conexões significativas e levar a discussão sobre os direitos das pessoas autistas a ambientes profissionais e institucionais cada vez mais importantes.
Minha participação na ABA, na OAB e na Frente Parlamentar me mostrou que o crescimento profissional não acontece apenas pelo acúmulo de conhecimento técnico. Ele também nasce do encontro com pessoas que ampliam nossa visão, desafiam nossas certezas e nos convidam a construir algo maior do que aquilo que conseguiríamos realizar sozinhos. Foi nesses espaços que compreendi que uma atuação individual pode ganhar alcance coletivo quando encontra escuta, articulação e oportunidade.
Por isso, vejo o associativismo como uma força capaz de transformar tanto a trajetória de um profissional quanto a realidade ao seu redor. Ele amplia vozes, fortalece projetos e cria caminhos para que boas ideias deixem de permanecer no campo das intenções.
A ABA tem sido especialmente importante na minha trajetória porque me oferece espaço, confiança e oportunidades para levar a pauta do autismo a novos ambientes, construir conexões relevantes e transformar conhecimento em atuação concreta.
Dossiê Nacional:
Para os colegas advogados que estão iniciando suas carreiras ou buscando uma área de atuação com propósito, que mensagem a senhora gostaria de deixar?
Mariel Palma:
Eu diria que não escolham uma área apenas porque ela parece rentável, segura ou está em evidência. Procurem compreender quais problemas despertam em vocês disposição para estudar profundamente, assumir responsabilidade e servir pessoas com verdadeira excelência.
Também não acreditem que exista uma única forma correta de construir uma carreira. Por muito tempo, eu tentei me adaptar a modelos profissionais que não respeitavam minha forma de pensar e trabalhar. Hoje compreendo que uma carreira consistente não nasce da reprodução do caminho de outra pessoa, mas da construção de um método compatível com nossas características, nossos valores e a vida que desejamos sustentar.
Propósito, sozinho, não basta. É preciso organização, limites, delegação e uma rede de apoio segura. Não há mérito em adoecer para provar comprometimento. Uma carreira só se mantém ao longo do tempo quando o profissional aprende a cuidar da estrutura que sustenta o próprio trabalho.
A reputação também não é construída apenas por grandes oportunidades. Ela nasce das pequenas decisões repetidas diariamente: estudar com seriedade, cumprir a palavra, reconhecer erros, tratar as pessoas com respeito e permanecer coerente mesmo quando um atalho parece mais vantajoso.
Minha mensagem é que não tenham pressa de parecer prontos. Tenham coragem de construir uma carreira que tenha verdade. O propósito não está apenas na área escolhida, mas na forma como cada pessoa decide exercer a profissão e no impacto que deixa ao longo do caminho.
Para mim, legado é aquilo que permanece quando a nossa presença já não é necessária: nas pessoas que fortalecemos, nas instituições que ajudamos a transformar e nos caminhos que tornamos mais acessíveis para quem vem depois.
Dossiê Nacional:
Quem é Mariel Palma além dos títulos e das funções?
Mariel Palma:
Além dos títulos e das funções, sou uma mulher feita de muitas peças. Algumas parecem contrastar entre si, mas todas fazem parte da mesma composição.
Sou intensa e sensível, racional e criativa, disciplinada e inquieta. Sou advogada, artista, esposa, escritora, palestrante, mulher autista e lutadora de Muay Thai. Então, quando digo que luto, não estou falando apenas em sentido figurado. Como boa autista, faço questão da precisão: também é no sentido literal!
Valorizo a família que estou construindo com meu marido, os vínculos verdadeiros, o aprendizado constante e a possibilidade de existir por inteiro, sem precisar representar uma versão diferente de mim em cada espaço.
Procuro conduzir minha vida com verdade, coerência, responsabilidade, lealdade e respeito à dignidade humana. Também aprendi que maturidade envolve conhecer minhas características, respeitar meus limites e saber acionar, com inteligência e sem culpa, a rede de apoio que construí.
Quero crescer, ocupar espaços e realizar projetos relevantes sem perder minha humanidade. Mais importante do que os cargos que eu venha a ocupar será saber se usei minha voz, meu conhecimento e as oportunidades que recebi para transformar realidades e tornar o caminho um pouco mais digno para quem vier depois de mim.
Por muito tempo, tentei entender qual dessas peças deveria mostrar em cada ambiente. Hoje, compreendo que não preciso escolher apenas uma delas para me encaixar. Minha força está justamente na composição: na mulher que estuda e cria, que argumenta e sente, que ama e lidera, que reconhece seus limites e continua expandindo suas possibilidades.
Nenhuma dessas partes me define sozinha, mas todas juntas contam quem eu sou. Sou feita de muitas peças e foi quando deixei de esconder algumas delas que finalmente comecei a me reconhecer inteira.
Considerações Finais
A história de Mariel Palma demonstra que a verdadeira força da advocacia está na capacidade de transformar conhecimento em impacto social. Sua trajetória inspira não apenas profissionais do Direito, mas todos aqueles que acreditam que inclusão, acessibilidade e respeito à diversidade são pilares fundamentais de uma sociedade mais justa.
Ao unir experiência pessoal, conhecimento técnico e compromisso com o interesse público, Mariel ajuda a ampliar vozes que durante muito tempo permaneceram invisíveis. Sua atuação reafirma que a defesa de direitos não se limita aos tribunais: ela começa na informação, na conscientização e na construção de espaços onde cada pessoa possa exercer plenamente sua cidadania.
O Dossiê Nacional agradece a entrevista e homenageia uma profissional que representa, com excelência, o propósito de utilizar a advocacia como instrumento de transformação humana e social.








