A internação de uma pessoa próxima já provoca preocupação e fragilidade emocional. É justamente esse momento de vulnerabilidade que criminosos exploram no chamado golpe do falso médico.
Na fraude, uma pessoa telefona ou envia mensagem para familiares do paciente, apresenta-se como médico, funcionário do hospital ou integrante da equipe responsável pelo tratamento e informa que seria necessário pagar com urgência determinado exame, medicamento ou procedimento.
Para tornar a abordagem convincente, o criminoso pode mencionar o nome completo do paciente, o hospital onde está internado, a especialidade médica, o setor de internação ou outras informações verdadeiras. Em seguida, apresenta uma justificativa alarmante e solicita pagamento imediato por Pix ou transferência bancária.
A precisão dos dados faz com que a família acredite estar conversando com um profissional legítimo. O pedido costuma vir acompanhado de pressão: o suposto médico afirma que o procedimento não pode esperar, que o plano de saúde não autorizou a despesa ou que o tratamento depende daquele pagamento.
O principal mecanismo do golpe não é tecnológico. É emocional. O criminoso procura impedir que a pessoa pare, reflita e confirme a informação.
COMO FUNCIONA O GOLPE E QUAIS SÃO OS SINAIS DE ALERTA
Os golpistas podem entrar em contato por ligação telefônica, WhatsApp, mensagem de texto ou até por perfis falsos em redes sociais. Em alguns casos, utilizam fotografia, nome e número de registro de um médico verdadeiro.
A fraude também pode envolver a clonagem visual de números telefônicos, contas comerciais falsas ou documentos que imitam cobranças hospitalares. A aparência profissional da mensagem, portanto, não garante sua autenticidade.
Alguns sinais devem despertar atenção imediata:
- solicitação inesperada de pagamento;
- alegação de urgência extrema;
- pedido de Pix para conta de pessoa física;
- ameaça de interrupção de exame ou tratamento;
- orientação para não falar com outros profissionais;
- recusa em fornecer documento formal da cobrança;
- insistência para que o pagamento seja realizado durante a ligação;
- pedido de senha, código de confirmação ou acesso ao aplicativo bancário;
- contato feito por número diferente dos canais oficiais do hospital.
Mesmo quando o interlocutor conhece informações verdadeiras, a família não deve concluir que a cobrança é legítima. Dados pessoais podem ter sido obtidos por vazamentos, engenharia social, acesso indevido a sistemas, redes sociais, documentos descartados inadequadamente ou conversas ouvidas em ambientes públicos.
Informações sobre saúde são classificadas pela Lei Geral de Proteção de Dados como dados pessoais sensíveis. Por isso, hospitais, clínicas, laboratórios e profissionais devem adotar medidas de segurança capazes de protegê-las contra acessos não autorizados.
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados alerta que incidentes podem provocar fraudes, tentativas de golpe, uso indevido e comercialização ilegal de informações pessoais.
Isso não significa que a existência de dados verdadeiros na abordagem comprove, por si só, que houve vazamento dentro do hospital. A origem das informações precisa ser investigada. Mas a unidade de saúde deve ser avisada para verificar se outros pacientes ou familiares também foram procurados.
RECEBEU UMA COBRANÇA? NÃO PAGUE ANTES DE CONFIRMAR
Diante de uma ligação suspeita, a primeira providência é interromper a conversa. Não é preciso discutir, acusar o interlocutor nem revelar que a fraude foi percebida.
A pessoa deve anotar o número utilizado, o nome apresentado, a quantia solicitada, a chave Pix e as informações mencionadas pelo suposto profissional.
Depois, deve procurar o hospital por um canal independente. O contato precisa ser feito pelo telefone disponível no site oficial, no cartão de atendimento, nos documentos entregues durante a internação ou diretamente no balcão da instituição.
Não se deve utilizar o número enviado pelo próprio desconhecido nem aceitar ser transferido por ele para outro suposto setor do hospital. Toda confirmação precisa começar em um canal oficial buscado pela própria família.
Também é recomendável conversar com o médico responsável, com a enfermagem, com o setor financeiro ou com a administração da unidade. Pergunte se o exame realmente foi solicitado, se existe alguma cobrança e qual é o procedimento formal adotado pelo hospital.
Em uma cobrança legítima, a instituição deve ser capaz de explicar o serviço, identificar o responsável, apresentar documentação e informar os meios oficiais de pagamento. A urgência médica não elimina o direito da família de confirmar as informações.
Alguns cuidados reduzem os riscos:
- Combine previamente quem será o contato principal da família com o hospital.
- Evite divulgar nas redes sociais detalhes da internação, número do quarto ou boletins médicos.
- Oriente familiares idosos ou com pouca familiaridade digital.
- Não compartilhe fotografias de documentos, carteiras de plano de saúde ou prontuários.
- Proteja o WhatsApp com verificação em duas etapas.
- Desconfie de pedidos de sigilo ou de pagamento fora dos canais institucionais.
- Nunca forneça senhas, códigos bancários ou acesso remoto ao celular.
É importante não adotar uma regra excessivamente simplificada, como imaginar que nenhum hospital realiza contato financeiro por telefone. As práticas podem variar. A regra segura é outra: nenhuma cobrança inesperada deve ser paga sem confirmação independente pelos canais oficiais da instituição.
FEZ O PIX? AJA IMEDIATAMENTE E GUARDE AS PROVAS
Se o pagamento já tiver sido realizado, a vítima deve entrar imediatamente em contato com seu banco e informar que a transferência decorreu de fraude.
Nos aplicativos bancários, pode existir a opção de contestar o Pix. O procedimento aciona o Mecanismo Especial de Devolução, conhecido como MED, criado para situações de fraude, golpe ou crime envolvendo o sistema de pagamentos instantâneos.
Segundo o Banco Central, a solicitação pode ser registrada na instituição financeira em até 80 dias após a transação. Contudo, quanto mais rapidamente a vítima agir, maiores podem ser as chances de ainda existirem recursos na conta recebedora. O mecanismo não garante a recuperação do dinheiro, pois a devolução depende da análise do caso e da disponibilidade de valores.
A vítima também deve registrar boletim de ocorrência e preservar todas as provas:
- capturas de tela das mensagens;
- número utilizado pelo criminoso;
- gravações ou registros das chamadas;
- chave Pix e nome do recebedor;
- comprovante da transferência;
- documentos enviados;
- horários e conteúdo das conversas;
- identificação apresentada pelo suposto médico.
O hospital deve ser comunicado formalmente. Além de auxiliar na confirmação da fraude, a instituição poderá investigar se ocorreu acesso indevido a informações e alertar outros pacientes.
Se houver indícios de utilização irregular de dados pessoais, a pessoa pode exercer seus direitos diretamente perante a instituição responsável pelo tratamento das informações. Se não obtiver resposta adequada, poderá apresentar petição ou denúncia à Autoridade Nacional de Proteção de Dados. A ANPD mantém canais específicos para titulares que não consigam exercer seus direitos ou que tenham conhecimento de possível descumprimento da LGPD.
Dependendo do caso, também podem ser procurados o Procon, a operadora do plano de saúde, os conselhos profissionais e os órgãos policiais responsáveis pela investigação.
O golpe do falso médico é especialmente cruel porque transforma o cuidado com uma pessoa doente em instrumento de pressão financeira. A resposta mais eficiente começa com uma atitude simples: parar antes de pagar.
Quando uma cobrança inesperada surgir em meio a uma internação, a família deve respirar, encerrar o contato e procurar diretamente o hospital. Em situações de urgência, alguns minutos de verificação podem evitar prejuízos financeiros e impedir que a preocupação com a saúde seja explorada por criminosos.








