Por Lucas Dantas
O crescimento acelerado da digitalização dos serviços financeiros, das comunicações e das relações profissionais trouxe benefícios incontestáveis para a sociedade. Ao mesmo tempo, abriu espaço para uma escalada sem precedentes dos golpes virtuais, que hoje figuram entre as principais preocupações de consumidores, empresas e profissionais liberais em todo o país.
Instituições financeiras, órgãos de segurança pública e entidades representativas vêm registrando aumento no número de tentativas de fraudes envolvendo aplicativos de mensagens, falsas centrais de atendimento, clonagem de identidade digital, links maliciosos e, mais recentemente, o uso de inteligência artificial para reproduzir voz, imagem e até vídeos de vítimas.
O fenômeno não afeta apenas pessoas físicas. Escritórios de advocacia, empresas e profissionais autônomos também passaram a integrar o grupo dos principais alvos dos criminosos.
Inteligência artificial amplia o poder de convencimento dos golpistas
Se antes os golpes dependiam de mensagens mal escritas e abordagens facilmente identificáveis, hoje a tecnologia tornou os ataques muito mais sofisticados.
Ferramentas de inteligência artificial permitem criar áudios extremamente semelhantes à voz de familiares, colegas de trabalho ou clientes. Em alguns casos, criminosos conseguem produzir vídeos manipulados capazes de simular reuniões virtuais ou pedidos urgentes de transferência bancária.
Esses recursos aumentam significativamente o poder de convencimento das fraudes e reduzem o tempo disponível para que a vítima perceba os sinais de risco.
Especialistas em segurança digital destacam que a chamada “engenharia social” continua sendo a principal arma utilizada pelos criminosos. O objetivo não é invadir sistemas complexos, mas convencer a própria vítima a entregar informações sensíveis ou autorizar movimentações financeiras.
WhatsApp permanece entre os principais meios utilizados nas fraudes
Os aplicativos de mensagens instantâneas seguem concentrando grande parte das tentativas de golpe registradas no Brasil.
Entre as modalidades mais frequentes estão:
- falso pedido de dinheiro enviado em nome de familiares;
- clonagem ou falsificação de contas de WhatsApp;
- perfis que se passam por empresas;
- falsos vendedores em plataformas digitais;
- centrais bancárias fraudulentas;
- cobranças inexistentes;
- boletos adulterados;
- golpes envolvendo PIX.
Os criminosos costumam explorar momentos de pressa, preocupação ou urgência emocional para reduzir a capacidade de análise da vítima.
Por isso, especialistas recomendam sempre confirmar qualquer solicitação financeira utilizando outro canal de comunicação antes de realizar pagamentos ou transferências.
Advogados também estão na mira dos criminosos
O setor jurídico passou a enfrentar um crescimento expressivo das tentativas de fraude.
Golpistas monitoram processos públicos, identificam clientes de escritórios e entram em contato utilizando fotografias de advogados retiradas da internet.
Em seguida, informam falsamente que determinada ação judicial foi encerrada ou que existe um valor disponível para saque, condicionando a liberação ao pagamento antecipado de taxas inexistentes.
Outra modalidade consiste na criação de perfis falsos em aplicativos de mensagens utilizando nome, fotografia e identidade visual de escritórios conhecidos.
Além dos prejuízos financeiros para os clientes, esse tipo de fraude também compromete a reputação dos profissionais atingidos.
Diversas seccionais da advocacia e entidades representativas têm intensificado campanhas educativas para orientar advogados e cidadãos sobre essas práticas criminosas.
Fraudes bancárias evoluem com novas tecnologias
As instituições financeiras também ampliaram investimentos em segurança digital diante da evolução dos ataques.
Hoje são comuns tentativas de obtenção de senhas por meio de páginas falsas, aplicativos adulterados, falsas atualizações cadastrais e ligações telefônicas em que criminosos simulam ser funcionários de bancos.
Em muitos casos, a fraude ocorre após o compartilhamento de códigos enviados por SMS ou aplicativos autenticadores.
Outra preocupação crescente envolve programas capazes de controlar remotamente celulares e computadores após a instalação de aplicativos aparentemente legítimos.
Com acesso ao dispositivo da vítima, os criminosos conseguem acompanhar operações bancárias em tempo real.
Os 10 golpes digitais mais aplicados atualmente no Brasil
Os criminosos adaptam constantemente suas estratégias para explorar novas tecnologias e o comportamento das vítimas. Embora as modalidades variem, especialistas em segurança digital apontam que alguns golpes aparecem com frequência em todo o país.
1. Golpe do falso WhatsApp
Criminosos criam um perfil utilizando foto e nome de uma pessoa conhecida e passam a pedir dinheiro a familiares e amigos, alegando mudança de número ou situação de emergência.
2. Golpe da falsa central bancária
A vítima recebe uma ligação aparentemente legítima informando uma movimentação suspeita na conta. Durante a conversa, é convencida a fornecer senhas, códigos de autenticação ou realizar transferências para uma conta indicada pelos próprios criminosos.
3. Golpe do PIX
Utilizando engenharia social, invasão de contas ou comprovantes falsificados, golpistas induzem a vítima a realizar transferências instantâneas acreditando tratar-se de uma operação legítima.
4. Links falsos
Mensagens enviadas por SMS, e-mail ou aplicativos prometem benefícios, descontos, atualização cadastral ou entrega de encomendas. Ao clicar no link, a vítima pode fornecer seus dados ou instalar programas maliciosos.
5. Falso investimento
Promessas de rentabilidade elevada, lucros rápidos e investimentos “garantidos” continuam atraindo vítimas. Em muitos casos, os criminosos utilizam imagens de personalidades conhecidas para dar aparência de credibilidade.
6. Golpe da inteligência artificial
Com ferramentas capazes de reproduzir voz e imagem, criminosos simulam chamadas de vídeo ou mensagens de áudio de familiares, clientes ou colegas de trabalho para solicitar dinheiro ou informações confidenciais.
7. Clonagem de cartão e de aplicativos bancários
Dispositivos instalados em caixas eletrônicos, páginas falsas ou aplicativos adulterados permitem que criminosos obtenham dados financeiros e movimentem contas bancárias sem autorização.
8. Golpe do falso advogado
Clientes recebem mensagens informando que ganharam uma ação judicial e que precisam antecipar taxas, impostos ou custas para liberar valores supostamente disponíveis. Escritórios de advocacia têm alertado constantemente sobre esse tipo de fraude.
9. Golpe do falso boleto
O documento possui aparência idêntica ao original, mas direciona o pagamento para contas controladas pelos criminosos. A fraude é comum em negociações comerciais e pagamentos de serviços.
10. Golpe das compras pela internet
Sites falsos, anúncios patrocinados fraudulentos e perfis clonados em redes sociais oferecem produtos com preços muito abaixo do mercado. Após o pagamento, o consumidor não recebe a mercadoria e perde o dinheiro.
Como identificar uma tentativa de golpe
Embora os golpes sejam cada vez mais sofisticados, alguns sinais merecem atenção imediata:
- pedidos de pagamento com urgência;
- mensagens contendo erros ou informações incompletas;
- mudança inesperada de número de telefone;
- solicitações para compartilhar códigos recebidos por SMS;
- links desconhecidos;
- promessas de ganhos fáceis ou descontos muito acima do normal;
- pedidos para manter a operação em sigilo;
- contatos realizados fora dos canais oficiais de empresas ou instituições.
Sempre que houver dúvida, a recomendação é interromper a conversa e confirmar a informação diretamente com a pessoa ou instituição envolvida, utilizando canais oficiais.
Como reduzir o risco de ser vítima
Especialistas em segurança digital afirmam que a prevenção continua sendo a medida mais eficiente contra os golpes eletrônicos.
Entre as principais recomendações estão:
- ativar a autenticação em dois fatores;
- manter aplicativos sempre atualizados;
- utilizar senhas diferentes para cada serviço;
- evitar clicar em links enviados por desconhecidos;
- confirmar solicitações financeiras diretamente com a pessoa envolvida;
- desconfiar de mensagens com tom de urgência;
- nunca compartilhar códigos de autenticação;
- verificar cuidadosamente o endereço de sites antes de informar dados pessoais;
- manter antivírus atualizado;
- registrar boletim de ocorrência em caso de tentativa ou consumação da fraude.
A educação digital tornou-se um dos principais instrumentos de proteção da população diante da velocidade com que novas modalidades criminosas surgem na internet.
O que fazer se você cair em um golpe
Agir rapidamente pode fazer toda a diferença para reduzir prejuízos financeiros e aumentar as chances de recuperação. Ao perceber que foi vítima de uma fraude digital, a recomendação é interromper imediatamente qualquer contato com o golpista e adotar medidas de segurança sem demora.
Especialistas orientam que a vítima comunique o banco ou a instituição financeira o quanto antes para bloquear transações, cartões e acessos à conta, sempre que necessário. Também é importante alterar as senhas dos serviços afetados, especialmente de aplicativos bancários, e-mails e redes sociais.
Outra providência essencial é registrar um boletim de ocorrência, reunindo todas as evidências disponíveis, como mensagens, comprovantes de pagamento, números de telefone, endereços eletrônicos, capturas de tela e qualquer outra informação que possa auxiliar na investigação.
Se o golpe envolver WhatsApp, e-mail ou redes sociais, a vítima deve informar seus contatos sobre a fraude para evitar que outras pessoas sejam enganadas utilizando sua identidade. Em situações relacionadas a compras, serviços ou relações de consumo, também é recomendável procurar os órgãos de defesa do consumidor para receber orientação sobre os procedimentos cabíveis.
Quanto mais rápida for a reação, maiores são as possibilidades de minimizar os danos e contribuir para a identificação dos responsáveis. Além disso, denunciar tentativas de fraude ajuda autoridades e instituições a aperfeiçoarem os mecanismos de combate aos crimes digitais e a protegerem novos potenciais alvos.ntenção dos danos.
Segurança digital passa a ser responsabilidade compartilhada
O combate aos golpes virtuais depende da atuação conjunta entre instituições financeiras, empresas de tecnologia, órgãos de investigação, Poder Judiciário, profissionais da área de segurança da informação e dos próprios usuários.
À medida que os criminosos incorporam novas tecnologias, cresce também a necessidade de conscientização permanente da sociedade.
A informação correta, aliada à adoção de hábitos seguros no ambiente digital, representa hoje uma das formas mais eficazes de reduzir prejuízos financeiros e proteger dados pessoais.
O que muda na prática
O avanço dos golpes digitais exige que cidadãos, empresas e profissionais adotem uma postura mais preventiva no uso da tecnologia. Confirmar informações antes de realizar pagamentos, ativar mecanismos adicionais de segurança, desconfiar de contatos inesperados e proteger dados pessoais deixam de ser simples recomendações e passam a integrar a rotina de quem utiliza serviços bancários, aplicativos de mensagens e plataformas digitais.
O Especialista Explica
Por Esdras Dantas de Souza
Advogado • Consultor Jurídico
A expansão dos crimes digitais demonstra que a proteção jurídica do cidadão depende cada vez mais da combinação entre legislação, tecnologia e comportamento preventivo. Embora o ordenamento jurídico brasileiro disponha de instrumentos para responsabilizar autores de fraudes eletrônicas, a identificação dos criminosos nem sempre é simples, especialmente quando as ações envolvem redes internacionais ou ocultação de identidade digital.
No âmbito da advocacia, a atenção deve ser redobrada. Escritórios precisam investir em protocolos internos de segurança da informação, autenticação de comunicações com clientes e orientação permanente das equipes. Também é recomendável que clientes sejam previamente informados sobre os canais oficiais utilizados pelo escritório, reduzindo o risco de golpes praticados por terceiros.
A prevenção continua sendo a ferramenta mais eficaz. Em um cenário de constante evolução tecnológica, conhecimento e cautela tornam-se aliados indispensáveis para preservar patrimônio, dados pessoais e a confiança nas relações digitais.
Luicas Dantas /Editoria do Dossiê Nacional








