A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para se tornar parte da realidade da advocacia. Ferramentas capazes de pesquisar, organizar informações, analisar documentos, resumir grandes volumes de conteúdo e auxiliar na execução de diferentes tarefas jurídicas já começam a modificar rotinas profissionais e a exigir dos advogados novas competências.
Foi diante desse cenário que Daniel Marques, advogado e especialista em inovação jurídica, participou da 24ª Convenção Anual da Associação Brasileira de Advogados (ABA), realizada no Windsor Barra Hotel, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
Com o tema “Inteligência Artificial para Advogados: Desafios, Oportunidades e Perspectivas para a Advocacia Moderna”, a palestra colocou em debate uma das questões mais relevantes para o futuro das profissões jurídicas.
A apresentação foi também uma oportunidade de aprendizado e atualização para os associados da ABA presentes à Convenção, ao aproximar um tema muitas vezes tratado como algo essencialmente tecnológico da realidade concreta dos escritórios e dos profissionais do Direito.
A inteligência artificial já chegou à advocacia

Durante muito tempo, falar em inteligência artificial no Direito parecia significar discutir aquilo que poderia acontecer no futuro.
Esse futuro chegou.
Sistemas baseados em IA generativa passaram a fazer parte da rotina de profissionais e organizações em diferentes setores. Na advocacia, seu potencial alcança atividades como organização de informações, pesquisa, tratamento de documentos, elaboração de sínteses, gestão do conhecimento e aumento da produtividade.
A mudança, entretanto, não elimina a necessidade do conhecimento jurídico.
Ao contrário.
Quanto mais sofisticadas se tornam as ferramentas, maior tende a ser a importância da capacidade humana de avaliar criticamente os resultados produzidos por elas.
A inteligência artificial pode auxiliar o advogado. A responsabilidade profissional, porém, continua sendo humana.
Essa distinção é fundamental em uma atividade que trabalha diariamente com direitos, patrimônio, liberdade, relações familiares, empresas e decisões capazes de interferir profundamente na vida das pessoas.
O desafio não é apenas aprender a usar ferramentas

Um dos grandes debates envolvendo inteligência artificial e advocacia está justamente na necessidade de compreender que inovação tecnológica não se resume ao domínio de determinada plataforma.
O advogado precisa conhecer as possibilidades das novas tecnologias, mas também suas limitações.
Resultados produzidos por sistemas de inteligência artificial podem conter erros, informações imprecisas ou referências inexistentes. Há ainda questões relacionadas à proteção de dados, confidencialidade, sigilo profissional, propriedade intelectual, transparência e responsabilidade pelo conteúdo utilizado.
Por isso, a incorporação da IA ao exercício profissional exige mais do que entusiasmo.
Exige conhecimento.
Exige senso crítico.
Exige responsabilidade.
E exige ética.
Nesse contexto, palestras como a apresentada na Convenção da ABA assumem importância especial: ajudam a substituir dois extremos igualmente inadequados — o medo absoluto da tecnologia e a confiança irrestrita nela — por uma postura baseada em compreensão, preparação e utilização responsável.
Daniel Marques e o debate sobre inovação jurídica
A escolha de Daniel Marques para abordar o tema encontra respaldo em sua trajetória profissional.
O advogado ocupa posição de destaque no ecossistema brasileiro de inovação jurídica. É CEO da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L) e fundador e presidente do Conselho da AI2L. Sua formação e atuação profissional estão relacionadas a inovação jurídica, gestão, ética e inteligência artificial.
A programação do AB2L Lawtech Experience 2026 registra ainda sua pesquisa acadêmica sobre ética e regulação da inteligência artificial, além de formação multidisciplinar que reúne Direito, Filosofia e Gestão Empresarial.
Essa combinação permite observar a transformação tecnológica da advocacia por uma perspectiva que não se limita à eficiência das ferramentas.
A questão central passa a ser também como utilizar a tecnologia sem perder os valores que sustentam a profissão.
Tecnologia não substitui confiança
A chegada da inteligência artificial inevitavelmente desperta uma pergunta entre profissionais do Direito: qual será o papel do advogado em uma realidade na qual máquinas conseguem executar tarefas que antes dependiam exclusivamente de trabalho humano?
A resposta passa pela própria natureza da advocacia.
Tecnologia pode processar informações em grande velocidade.
Pode identificar padrões.
Pode auxiliar pesquisas.
Pode automatizar tarefas repetitivas.
Mas advocacia não é apenas processamento de informações.
Advogar envolve interpretar circunstâncias humanas, compreender interesses, estabelecer confiança, definir estratégias, aconselhar, negociar, assumir responsabilidades e tomar decisões diante de situações que frequentemente não admitem respostas automáticas.
A tecnologia pode transformar a forma de trabalhar.
Não elimina, porém, a dimensão humana da advocacia.
Capacitar para transformar
A presença do tema na programação da 24ª Convenção também reforçou uma das preocupações permanentes da Associação Brasileira de Advogados: oferecer aos seus integrantes oportunidades de atualização diante das mudanças do mercado profissional.
A missão da ABA de promover o crescimento e o reconhecimento profissional de seus associados passa necessariamente pela capacitação.
E, em 2026, capacitar também significa preparar o advogado para compreender a transformação digital.
Para o presidente nacional da ABA, Esdras Dantas, trazer o debate sobre inteligência artificial para a Convenção significa olhar para o futuro sem abandonar os fundamentos da profissão.
“A missão da ABA é promover o crescimento e o reconhecimento profissional dos nossos associados. Não podemos cumprir essa missão olhando apenas para a advocacia de ontem. Precisamos preparar nossos colegas para a advocacia que já está surgindo. A palestra do Dr. Daniel Marques trouxe conhecimento, reflexão e uma visão responsável sobre a inteligência artificial. Queremos que nossos associados conheçam essas ferramentas, aproveitem as oportunidades que elas oferecem e, ao mesmo tempo, jamais abram mão da ética, do conhecimento jurídico e da responsabilidade profissional.”
A reflexão sintetiza uma mudança que alcança não somente os jovens advogados.
Profissionais experientes, escritórios tradicionais, departamentos jurídicos, instituições públicas e o próprio sistema de Justiça estão diante da necessidade de compreender novas tecnologias e avaliar de que maneira elas poderão ser incorporadas às respectivas atividades.
O profissional que souber combinar Direito e tecnologia
A discussão sobre inteligência artificial não precisa ser conduzida a partir da ideia de uma disputa entre seres humanos e máquinas.
Talvez a questão mais importante seja outra: como combinar aquilo que a tecnologia faz melhor com aquilo que continua dependendo essencialmente das pessoas?
A IA pode oferecer velocidade.
O advogado precisa oferecer discernimento.
A tecnologia pode organizar dados.
O advogado precisa interpretar contextos.
A máquina pode produzir respostas.
O profissional precisa saber formular as perguntas certas — e verificar se as respostas são juridicamente corretas.
Essa combinação tende a se tornar um dos diferenciais da advocacia moderna.
Preparar hoje o advogado de amanhã
Ao inserir inteligência artificial entre os temas debatidos em sua 24ª Convenção Anual, a ABA sinaliza que capacitação profissional não pode permanecer presa apenas às competências tradicionais.
Dominar o Direito continuará sendo indispensável.
Mas compreender tecnologia, gestão, comunicação, inovação e as transformações do mercado também fará parte, cada vez mais, da construção de uma carreira jurídica sustentável.
É justamente nesse ponto que a palestra de Daniel Marques ultrapassa os limites de uma apresentação sobre tecnologia.
Ela provoca uma reflexão sobre qual advogado estará preparado para exercer a profissão nos próximos anos.
A inteligência artificial continuará evoluindo. Novas ferramentas surgirão. Algumas desaparecerão. Outras passarão a integrar silenciosamente a rotina dos escritórios.
Em meio a tantas mudanças, uma conclusão permanece.
O futuro da advocacia não será construído apenas pela tecnologia. Será construído por profissionais capazes de compreender a tecnologia sem deixar de compreender o Direito — e, sobretudo, as pessoas que o Direito existe para servir.








