RIO DE JANEIRO — Havia uma pergunta projetada no telão que, sozinha, resumia o incômodo de toda uma categoria: se a inteligência artificial promete economizar nosso tempo, por que a sensação é de que temos cada vez menos tempo?
Foi diante dessa provocação, num auditório lotado do Windsor Barra Hotel, na Barra da Tijuca, que a 24ª Convenção Anual da Associação Brasileira de Advogados (ABA) realizou um dos momentos mais densos de sua programação. Na tarde de 20 de agosto, sete advogadas ocuparam o palco para enfrentar um tema que a advocacia brasileira costuma tratar em voz baixa — quando trata: a saúde mental de quem exerce a profissão.
A mesa redonda “Saúde Mental na Advocacia: pressão por resultados, sobrecarga digital e construção de uma carreira sustentável” teve mediação da Dra. Monique Vieira, membro da ABA, e reuniu as advogadas Bianca Castro, Carolina Miranda, Cíntia Possas, Daiene Preissler, Ingrid Eustaquio e Sandra Morais — todas profissionais militantes, com trajetórias construídas na linha de frente da prática jurídica.
A escolha do horário e do formato não foi acidental. Às 16h do segundo dia de convenção, quando o cansaço acumulado já se instala em qualquer evento de imersão, o debate colocou o dedo exatamente na ferida: a exaustão como método de trabalho.
A tecnologia no banco dos réus
O painel partiu de uma inversão desconfortável. Ao lado da pergunta sobre a inteligência artificial, o telão exibia outra: a tecnologia está nos ajudando a trabalhar melhor ou apenas permitindo que trabalhemos cada vez mais?
A questão sintetiza um paradoxo que a advocacia conhece de perto. As ferramentas digitais eliminaram deslocamentos, aceleraram pesquisas e automatizaram tarefas repetitivas. Em contrapartida, dissolveram a fronteira entre o escritório e a casa, entre o expediente e a madrugada, entre o profissional e a pessoa. O processo eletrônico não fecha às 18h. O celular não distingue domingo de terça-feira.
O que se discutiu no palco, portanto, não foi tecnologia — foi o modelo de vida que a tecnologia tornou possível e que a cultura profissional tornou obrigatório.
Uma convenção construída sobre as dores reais da profissão
Realizada de 19 a 21 de agosto de 2026, a 24ª Convenção Anual da ABA reuniu mais de 150 lideranças da entidade, com advogados e convidados vindos de todas as regiões do Brasil e também do exterior. O auditório permaneceu lotado nos três dias.
A programação foi desenhada a partir de um diagnóstico direto sobre aquilo que a diretoria da ABA identifica como as dores concretas da advocacia contemporânea: a busca por visibilidade num mercado saturado, a construção de autoridade profissional dentro do nicho de atuação de cada participante, o desenvolvimento de relacionamentos profissionais consistentes e a geração de oportunidades reais de parceria.
São quatro necessidades que se retroalimentam. E que, na prática cotidiana, cobram um preço — precisamente o preço que a mesa redonda de 20 de agosto se propôs a calcular em voz alta.
O encontro funcionou, assim, em dois planos simultâneos. No plano visível, a troca de informações e experiências entre lideranças, a articulação de parcerias e a abertura de novas frentes de atuação. No plano menos visível, mas não menos determinante, a construção de um ambiente em que o profissional pode admitir dificuldade sem que isso seja lido como fraqueza.
Carreira sustentável não é slogan
O terceiro elemento do título do painel — a construção de uma carreira sustentável — talvez seja o mais decisivo e o menos compreendido.
Sustentabilidade, aqui, não é discurso de bem-estar. É viabilidade de longo prazo. Uma advocacia que consome seus profissionais em uma década não é uma advocacia próspera: é uma advocacia que trabalha com reposição. O debate proposto pela ABA sugere que a categoria comece a tratar o esgotamento não como um problema individual de quem não aguentou, mas como uma questão estrutural de organização do trabalho.
Ao dar palco central a esse tema em sua convenção anual, a Associação Brasileira de Advogados fez uma escolha editorial clara sobre o que considera prioritário para a profissão nos próximos anos.
A 24ª Convenção Anual encerrou-se em 21 de agosto, no Rio de Janeiro.
Associação Brasileira de Advogados — 24ª Convenção Anual · Windsor Barra Hotel, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro · 19 a 21 de agosto de 2026








