“A credibilidade das instituições públicas depende, em grande medida, da credibilidade daqueles que as representam.” – Esdras Dantas de Souza
Vivemos uma época em que a política ocupa espaço permanente nas conversas, nas redes sociais, nos meios de comunicação e até nas reuniões familiares. Nunca se falou tanto sobre governos, eleições, partidos e decisões públicas. Ao mesmo tempo, uma pergunta parece surgir com frequência cada vez maior: por que tantos políticos mentem?
Embora a pergunta seja compreensível, ela merece uma resposta equilibrada. Generalizar seria cometer uma injustiça com inúmeros homens e mulheres que dedicam suas vidas ao serviço público com honestidade, competência e espírito republicano. Entretanto, também seria ingênuo negar que a mentira, o exagero e a manipulação da informação fazem parte da história política de praticamente todas as democracias.
A política sempre foi um ambiente de disputa. Disputa por ideias, por projetos, por poder e, sobretudo, pela confiança do eleitor. Nessa disputa, alguns enxergam a verdade como um princípio inegociável. Outros, infelizmente, passam a tratá-la como um recurso estratégico, moldando discursos conforme as conveniências do momento.
A mentira política raramente aparece de forma explícita. Ela costuma surgir de maneira mais sofisticada. Às vezes, manifesta-se por meio de promessas sabidamente impossíveis de cumprir. Em outras ocasiões, pela omissão de informações relevantes, pela apresentação seletiva de dados ou pela construção de narrativas que destacam apenas aquilo que favorece determinado interesse.
Esse comportamento não é exclusivo de um partido, de uma ideologia ou de um país. Trata-se de um fenômeno humano que acompanha a política desde as antigas civilizações. Basta recordar que, ainda na Grécia Antiga, filósofos como Platão e Aristóteles já discutiam os riscos da demagogia e da manipulação da opinião pública.
No entanto, talvez o problema não esteja apenas nos políticos.
Uma sociedade que recompensa discursos emocionais acima de argumentos consistentes acaba criando incentivos para que a retórica prevaleça sobre os fatos. Quando a popularidade passa a valer mais do que a credibilidade, alguns líderes compreendem rapidamente que dizer aquilo que as pessoas desejam ouvir pode render mais votos do que apresentar diagnósticos difíceis ou soluções complexas.
A tecnologia ampliou esse desafio. Hoje, uma informação falsa pode alcançar milhões de pessoas em poucos minutos. Mesmo quando posteriormente desmentida, parte do dano já foi produzida. A velocidade da desinformação frequentemente supera a velocidade da correção.
Mas seria injusto concluir que a política está condenada à mentira.
A democracia possui mecanismos importantes de proteção da verdade. A imprensa livre, as instituições de controle, o Poder Judiciário independente, os órgãos de fiscalização, a atuação do Ministério Público e, principalmente, uma sociedade civil vigilante formam uma rede destinada justamente a impedir que versões substituam permanentemente os fatos.
Mais importante ainda é o papel do cidadão.
Nenhuma democracia será mais honesta do que o nível de exigência de sua população. Quando os eleitores valorizam transparência, coerência e responsabilidade, a política tende a responder a esses incentivos. Quando, ao contrário, a sociedade passa a aceitar qualquer narrativa desde que confirme suas próprias convicções, abre-se espaço para que a verdade seja relativizada.
Talvez a pergunta mais importante não seja por que alguns políticos mentem.
Talvez devêssemos perguntar por que, tantas vezes, estamos dispostos a acreditar apenas naquilo que confirma nossas preferências.
A democracia não exige governantes perfeitos. Exige instituições fortes, fiscalização permanente e cidadãos conscientes de que o voto representa muito mais do que uma escolha momentânea: representa um compromisso contínuo com a qualidade da vida pública.
No final das contas, a verdade continua sendo o fundamento mais sólido da confiança. E confiança é o bem mais valioso que uma sociedade pode depositar em seus representantes.
O Especialista Opina
“A credibilidade das instituições públicas depende, em grande medida, da credibilidade daqueles que as representam. Por essa razão, a verdade não pode ser vista apenas como uma virtude moral, mas como um verdadeiro dever ético de quem exerce funções públicas.
Naturalmente, nem toda promessa não cumprida decorre de má-fé. Governar significa lidar com limitações orçamentárias, mudanças econômicas, decisões legislativas e judiciais, além de circunstâncias imprevisíveis. Ainda assim, a transparência deve orientar a relação entre governantes e governados. Explicar dificuldades, reconhecer equívocos e prestar contas fortalece a democracia muito mais do que insistir em narrativas incompatíveis com os fatos.
Em uma República, o poder pertence ao povo. E somente uma cidadania bem informada, crítica e comprometida com a verdade é capaz de preservar instituições fortes, respeitadas e verdadeiramente democráticas.”
Esdras Dantas de Souza
Advogado, professor e consultor jurídico.








